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Mãos enrugadas, marcas do tempo, unhas sujas de terra. “A vida começa aqui” murmura a moça.

- Equipe Vozes da Terra

Fonte: Canva

AS RAÍZES DA DESIGUALDADE AGRÁRIA DO BRASIL 

Como as divisões de terra instauradas no período colonial ainda moldam a realidade atual

Nycole de Souza

Mas o que é o marco temporal? É uma lei que determina que os povos indígenas só teriam direito à demarcação das terras que estivessem sob sua posse na data de 5 de outubro de 1988. Caso a comunidade não estivesse ocupando fisicamente a terra nessa data, ela não teria o direito de reivindicá-la como território tradicional. 

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Antes do "descobrimento” do Brasil, em 1500, o território já era habitado por povos nativos, com suas próprias línguas, costumes, religiões e culturas diversas. Com a chegada dos portugueses, houve um grande impacto na divisão das terras e nas culturas indígenas, marcada pela imposição do catolicismo e pela proibição das tradições locais, o que provocou um choque cultural. O período colonial deu início ao processo de concentração de terras, um legado que atravessa séculos na história do Brasil.

Durante o período colonial, a relação entre os povos originários e os portugueses foi marcada por conflitos. Os colonizadores escravizavam os indígenas para explorar o pau-brasil, um recurso valioso que mais tarde deu nome ao país. Reconhecendo a riqueza do território, os portugueses iniciaram a colonização.

Posteriormente, a economia passou a se concentrar no cultivo de cana-de-açúcar. Parasustentar as plantações, os colonizadores substituíram a mão de obra indígena porafricanos escravizados, após essa substituição, com medo de serem mortos, muitos delesfugiram para o interior do Brasil. ​​

O potiguara, Sergio Ricardo, mestre em Ciências Ambientais e doutorando em antropologia, ativista e membro da organização Baía Viva, criada em 1984 no Rio de Janeiro, com o objetivo de proteger a Baía de Guanabara, que historicamente tem sido prejudicado pelo desenvolvimento do urbano-industrial poluente. Conta sobre o preconceito sofrido até os dias atuais pelos povos por não aceitarem “trabalhar” para os colonizadores: 

“Você tinha que ser José, Maria, Pedro, você não podia usar seu nome indígena, as cidades não tinham mais a presença indígena. Mas, muitas vezes eles estavam na praça, era população de rua, ou estavam trabalhando ali, sendo escravizados”.​​​​​​​​

 

O legado do período colonial perpétua a desigualdade territorial no Brasil e impacta os direitos dos povos indígenas. Segundo um censo da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), realizado em 2022, aponta que a população indígena do país chegou a representar 0,83% do total de habitantes.  De acordo com o IBGE, mais da metade dessa população está concentrada no Estado da Amazônia.

Direito à terra 

Segundo Tyego Franklim, historiador e professor de história na rede estadual do Rio Grande do Norte, especialista em Brasil Colônia e história indígena, “a instituição da compra de terras criou uma base para a desigualdade social no acesso à terra que persiste até hoje.” 

A Lei de Terras, promulgada pelo Imperador Dom Pedro II em 1850, proibiu a concessão gratuita de terras, exigindo que elas fossem compradas. Essa medida intensificou a concentração e inúmeros conflitos. Impedindo que ex-escravos, imigrantes e a população pobre tivessem acesso ao território.

Para Sérgio, a criação da Lei de Terras está diretamente ligada à origem das favelas, inclusive no Rio de Janeiro, onde reside. Ele explica que o fim da escravidão não garantiu o direito à terra para os ex-escravizados. Ao deixarem de ser escravizados, eles tinham poucas opções: fugir para um quilombo (comunidades formadas por pessoas que escapavam da escravidão), sujeito a ataques da polícia e do exército, ou acabar mortos de outra forma. Assim, muitos acabaram indo morar em favelas.

‘’Muitos conflitos giram em torno da negação da terra, é uma questão histórica até hoje não resolvida.’’ Além disso, destaca que a Lei de Terras também é responsável pelo déficit habitacional. “O direito à terra e ao território, ao meu ver, é a questão crucial do Brasil, que infelizmente não está na pauta das políticas públicas”, completa.

Herança colonial

As comunidades indígenas enfrentam sérias dificuldades, como explica o pesquisador. O movimento Baía Viva, junto com uma equipe de 10 pesquisadores da Fiocruz, visitou duas aldeias no município de Maricá para buscar recursos. Até hoje, essas aldeias recebem água por caminhão-pipa, mas a quantidade é insuficiente para o cultivo e criação de peixes nos tanques, resultando em insegurança alimentar.​​​​​​

“No Rio de Janeiro, das 8 aldeias indígenas, apenas 3 estão demarcadas. Essa

demarcação ocorreu no governo de Leonel Brizola, em 1983, e desde então

nenhuma nova terra foi demarcada. Nós, do movimento, seguimos tentando

avançar em políticas públicas”, afirma o potiguara.

A principal luta do movimento indígena é a demarcação de terras. “Após

o marco temporal ser aprovado, aumentou os conflitos, mortes, queimadas,

inclusive no espaço da espiritualidade dos povos indígenas”, ressalta Sérgio.

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​​​​​​​​​​​​​​​​​​​Resistência

"O modelo de capital se reproduz devorando a natureza", explica o ativista.

Dois fatores demonstram a importância de se atentar para a questão das

terras: é a ascensão da extrema direita em todo o mundo e a emergência

climática. Esse conjunto de questões é evidenciado pela crise ambiental,

hídrica e sanitária, que se manifesta

na poluição da Baía de Guanabara.

Para o ambientalista, uma boa notícia

é o crescimento do movimento

agroecológico, que promove a ideia

de "plantar o bem-viver". Esse movimento tem ganhado presença nos centros urbanos, retomando as tradições indígenas ao promover uma forma de cultivo que se alinha com a sabedoria dos povos nativos de convivência harmônica com a natureza.​​​​​​​

“Dizem que a profissão do brasileiro é Esperança, vamos esperançar”. Sergio Ricardo, ativista do Movimento Baía Viva.   

Afinal, quem vive com essa esperança viva, desistir não é uma opção, mesmo diante da luta constante e das dificuldades impostas por políticas públicas falhas.

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Fonte: Canva.

Comunidade indígena apoiada pelo Movimento Baía Viva no Rio de Janeiro. Foto: site Baía Viva.​

Neste podcast, te levamos em uma jornada de contos e narrativas.  Aperte o play e acompanhe as imagens abaixo.

Fonte: Canva.

Imagens: Leonardo IA

Conquistas das terras brasileiras e os movimentos sociais

Neste vídeo, levamos você à conhecer um pouco mais sobre as lutas pela terra no Brasil. 

LUTA PELA TERRA NO BRASIL 

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Fonte: Banco de imagens.

Fonte: Canva.

UM OLHAR SOBRE A TRANSFORMAÇÃO DO CAMPO BRASILEIRO 

A história da agricultura no Brasil: sementes do passado, tradição, crescimento e raízes imigrantes que moldaram o setor

Alejandro Silva

A agricultura tem raízes profundas, sustentadas pela mistura de tradições agrícolas, inovações e o trabalho de imigrantes que vieram ao país com esperança de um futuro melhor. O campo brasileiro, que hoje movimenta bilhões e abastece mercados globais, tem uma história rica e cheia de curiosidades.

Antes mesmo da palavra “agronegócio” entrar no vocabulário brasileiro, os povos indígenas já cultivavam mandioca e milho, e os engenhos de cana-de-açúcar dominavam a economia colonial. Com a chegada dos portugueses, o açúcar foi a base das primeiras exportações. Essa fase inicial trouxe uma mistura de culturas e técnicas que ainda definem o modo brasileiro de fazer agricultura.

O café e os italianos

No final do século XIX, o café tomou conta das lavouras e fez do Brasil um dos maiores exportadores do mundo. Nesse cenário, o estado de São Paulo se tornou o destino principal dos primeiros italianos, que chegaram em 1874 no navio La Sofia, trazendo sonhos e muita disposição.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os imigrantes transformaram a cultura cafeeira e ajudaram a diversificar a agricultura brasileira, com contribuições em outras culturas, como o plantio de uvas. Guilherme Salomão Vicentini, da Comissão Técnica de Cafeicultura da FAESP,   conta, “meu tataravô veio da Itália com o propósito de cultivar café. Eles se instalaram na região e fizeram um trabalho magnífico.”

A imigração italiana marcou profundamente a paisagem agrícola e cultural de regiões do Brasil. Famílias como os Tormena enfrentaram desafios imensos ao chegarem ao país. Inicialmente, muitos se estabeleceram em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas logo seguiram para o Rio Grande do Sul, desembarcando no Porto de Casais, em Porto Alegre.

Foi ali que começou a produção rural dessa família, conforme o governo estadual oferecia lotes em Caxias do Sul e em áreas do nordeste gaúcho. “Flores da Cunha foi o primeiro local onde eles se instalaram”, recorda Isabete Tormenta, descendente dos imigrantes da família Tormena, que veio ao Brasil em busca de uma vida melhor. Mais tarde, ao saber da distribuição de terras em Antônio Prado, o grupo se deslocou novamente.

A adaptação às novas condições não foi fácil. “Eles vieram sem empresa, mas trouxeram sementes e ferramentas da Itália”, explica Isabete. A religiosidade também desempenhou um papel importante na integração e sobrevivência. “Eles trouxeram uma imagem de Santo Antônio e construíram um capitel para oração nas colônias.”​​​​

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As terras eram difíceis. “Era tudo penhasco e mato”, descreve ela. Apesar disso, as sementes italianas começaram a dar frutos, mesmo em terrenos desafiadores e sob as limitações climáticas da época. Com o tempo, o cultivo cresceu, moldando a economia local e mantendo viva a tradição familiar.

Hoje, as terras que um dia pertenceram aos Tormena estão, em parte, nas mãos de outros proprietários, mas a herança agrícola continua. “Ainda há descendentes que cultivam essas terras, embora sejam poucos, pois muitos já estão em idade avançada”, conclui Isabete.

"Com raízes que remontam ao século XIX e à chegada dos imigrantes italianos, o agro brasileiro vai além da tradição, movimentando bilhões e posicionando o Brasil como líder global em inovação agrícola."​

A evolução do agronegócio brasileiro entre 2003 a 2023

O agronegócio brasileiro, em duas décadas, transformou-se profundamente, consolidando-se como um dos setores mais dinâmicos da economia nacional e um representante essencial no mercado global. Até a década de 1970, a mecanização no campo era limitada, mas a Revolução Verde trouxe novos ares para o agro brasileiro. Segundo o estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Revolução Verde no Brasil foi marcada por incentivos como crédito agrícola subsidiado e treinamento técnico para agricultores, que impulsionaram o uso de máquinas e insumos agrícolas. Além disso, a criação da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e as tecnologias de fertilização mudaram o cenário, fomentando a produção de grãos, e colocando o país entre os líderes globais do setor.

A análise de 2003 a 2023 mostra um crescimento robusto, tanto em termos de volume quanto de valor agregado. Em 2003, o agronegócio representava cerca de 22% do PIB brasileiro, com exportações anuais próximas de US$ 30 bilhões, segundo dados do Ministério da Agricultura. Já em 2023, o setor respondeu por 49% da pauta exportadora nacional, alcançando o recorde de US$ 166,55 bilhões, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e a Forbes Agro​.

A soja ocupa o topo da lista de produtos do agronegócio brasileiro exportados para a China. Em 2023, o Brasil enviou cerca de 79 milhões de toneladas do grão ao exterior, sendo que aproximadamente 70% desse volume teve como destino o mercado chinês, segundo um levantamento feito pela Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Reconhecida por sua qualidade, a soja brasileira desempenha um papel estratégico na produção de ração animal e óleo de soja, elementos fundamentais na cadeia alimentar da China.

 

 

 

 

 

Hoje, o agronegócio brasileiro usa técnicas avançadas, como GPS e drones, para monitorar e aumentar a produtividade. A agricultura de precisão é apenas um exemplo do quanto o Brasil evoluiu, transformando áreas inóspitas em solos férteis e colocando o país no topo da lista dos maiores produtores mundiais.

O futuro do agro brasileiro

O agronegócio brasileiro tem um potencial gigante para crescer de forma sustentável e continuar inovando. A crescente demanda por práticas agrícolas responsáveis coloca o Brasil em uma posição única no mercado global, com capacidade para liderar o movimento de sustentabilidade no campo.

Durante o Fórum Brasil de Investimento 2023, lideranças brasileiras destacaram o potencial transformador do agronegócio no cenário global. Silvia Massruhá, presidente da Embrapa, sublinhou o papel da ciência e da tecnologia no fortalecimento do setor, afirmando que "as tecnologias para a agricultura podem fazer uma transformação para trazer números positivos e garantir responsabilidade e transparência nos processos de produção". Segundo ela, o Brasil tem desenvolvido práticas e soluções sustentáveis que são referência mundial, promovendo a expansão agrícola com menor impacto ambiental.

O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, complementou destacando o comprometimento do Brasil com a produção sustentável e a qualidade dos alimentos. "O Brasil reconhece seu compromisso com o mundo, produzindo alimentos acessíveis e ajudando a concretizar o sonho de um mundo sem fome. Podemos contribuir para esse legado, mas sempre respeitando o meio ambiente", afirmou. Ele também ressaltou a importância da tecnologia, atribuindo à Embrapa e à iniciativa privada avanços significativos na eficiência e modernização do agronegócio​.

Com uma história que une tradições familiares, imigração e alta tecnologia, o Brasil continua a moldar o agronegócio mundial. O agro brasileiro é a prova de que, com raízes sólidas e visão de futuro, é possível ir longe, mantendo-se fiel ao trabalho e às tradições que começaram há gerações.

O navio La Sofia com Imigrantes Italianos. Fonte: divulgação do arquivo público do Espirito Santo.

Imagem do WhatsApp de 2024-11-15 à(s) 13
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O casal das fotos são Antonio e Eufemia Tormena e na parte inferior esquerda é Regina Tormena, filha do casal. Juntos, vieram para o Brasil diretamente da Província di Treviso, Itália. Fonte: Acervo pessoal de Isabete Tormena.

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Fonte: Shutterstock

Linha do tempo da evolução do agronegócio no Brasil

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